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A cuidadora - de Marina Hadlich



"É a terceira vez no dia que ela me chama. Primeiro o chá está muito frio. Depois o controle da televisão que não funciona. Agora só pode ser para trocar a fralda.

Quando aceitei um casamento sem conhecer pessoalmente o noivo ou a família dele, não imaginei que estaria aqui limpando a bunda da mulher que quase me impediu de casar. Talvez ela estivesse certa e, se tivesse impedido o matrimônio, eu estaria limpando a bunda de uma criança filha de outro pai.

Eu não saio de casa, tampouco posso receber visitas. Meu marido viaja por meses a fio como caminhoneiro e eu cuido da minha sogra que diz que eu devia agradecê-la por me dar um marido que sustenta a casa, que não exige que eu trabalhe fora. E como trabalharia se ela demanda cuidados em tempo integral? E pagar outra pessoa a um valor exorbitante?

Não tenho mãe para cuidar e a sogra não ocupa esse espaço materno que fura meu peito. São dois furos: um pelo fato de minha mãe ter me abandonado ainda bebê e, outro, por não poder ter um bebê. Não que eu e meu marido estivéssemos tentando muito. Quando ele volta das viagens, o cansaço é absurdo, a ponto de ele dormir sobre a mesa no jantar. Noutros momentos, de euforia, ele enche a casa de amigos, e eu, bom, eu sou relegada a cuidar da sogra, pois quem não traz dinheiro para casa cuida do lar.

Chego para trocar a fralda da minha sogra e flagro a bicha, de forma ligeira, mexendo no celular. A limitação do lado esquerdo não impede que a mão direita seja ágil no digitar, nem a boca torta atrapalha que a língua seja mais afiada que machado de lenhador.

— Eu xá dixe que exa marca não prexta!, É xurda, menina? – ela me fala sempre com alguma dificuldade de pronúncia.

Aos quarenta, ser chamada de “menina”, eu recebo como elogio. As demais palavras, eu abstraio, senão não sobrevivo. Aqui relato apenas o publicável, ou esse diário seria censurado, se é que algum dia alguém vai ler isso. Talvez o meu filho, aquele que ainda não nasceu e, se nascer, vai ser por obra do Espírito Santo, pelo jeito que as coisas andam.

— A outra estava muito cara – retruco.

— O meu filho te dixe que eu devo receber tudo do pom e do melhor. Não poxo xair daqui nada. Agora você, xe deixaxe, paxaria o dia na rua. Parexe que tem fogo no labo.

Não nego, tenho fogo e ninguém apaga. E eu não saio, mas se o faço,é apenas para ir ao mercado e à padaria. Não obstante, minhas vestes para tais saídas precisam ser aprovadas pela sogra, que se diz guardadora dos bens do filho, como se eu fosse algo que pudesse ser comprado ou tivesse de fato algum valor.

Nos rompantes da velha, o sonho de creme apazigua a ira. Mas a prioridade é comprar as fraldas, que lhe dão alergia, e usar somente o troco no doceno sonho do que não ter moeda de troca. A alergia já é um problema, que somado à assadura, faz ela reclamar de ardor dia e noite, mesmo passando a pomada, sempre a mesma, que geralmente só ameniza o problema.

Mas tem hora que a gente cansa de ser xingada, menosprezada, desvalorizada. Chego a pensar que sou uma serviçal multitarefa cuidadora, faxineira, cozinheira, empregada — angariada por meio de um contrato de casamento, não de trabalho. Pensando bem, é isso mesmo, pois nem festa de casamento teve. Apenas um jantar na nossa casa e que se resumiu à minha sogra resmungando e ao meu pai calado.

Queria, pelo menos, ter irmãos para poder ligar e desabafar, ou alguma amiga para me confidenciar, pedir conselhos. Mas qual conselho se dá para alguém que espera ter uma família, com filhos e marido, e na prática se vê casada com a sogra? Diria que caí em um golpe.

Há uma vizinha que, por vezes, me chama para dar um pouco de alface da sua horta. Mas minha sogra tem ouvido de morcego e assim que ouve o tom agudo da mulher, já grita pelo meu nome e coloca as regras:

— Tem menox de um minuto pegar o alfaxe e voltar pra cá.

O mais rápido possível, levo a alface até ela, para mostrar como está bonita, e digo que, com tomate e manjericão, seria um prato leve pro calor do verão. Ela se abana com a mão que ainda pode mover e retrai os dedos daquela que está atrofiada.

— Não quero xalada, quero maxa hoje no almoço.

Parece criança birrenta, mas nem um filho pequeno é assim. Pelo menos eu tenho trinta segundos de liberdade. Dá tempo de acenar para o carteiro, que passa na frente da nossa casa duas vezes por dia, mesmo não deixando nenhuma correspondência.

A bendita ou maldita sogra não é capaz de ver, mas no quintal está crescendo um pezinho verde, que cultivo com muito apreço, sem jamais deixá-lo encostar na minha pele. Assim, depois de confirmar que a vizinha já havia se recolhido, me agacho e colho um único pé de urtiga. Outros ainda estão se desenvolvendo, mas esse, com a atenção e amor que lhe dediquei, trará um pouco mais de assadura na próxima troca de fralda."

Marina Hadlich

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