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Meu pé de carambola



Cheguei em casa chorando.

Há anos não pensava naquele lugar, no cheiro, nas cores. Era o meu canto favorito no mundo quando criança. Como ficava feliz às sexta-feiras quando ia direto da escola para a casa da minha avó.

Eu e meus irmãos almoçavámos correndo para poder brincar no galinheiro. Mas não era um simples espaço com galinhas, seus dejetos por todos os lados e cheiro asqueroso. Era um mundo de possibilidades, com caixa de areia para desbravar, um rancho caindo aos pedaços cheio de ferramentas enferrujadas e muitas histórias para inventar.

Havia uma casinha para os novos pintinhos que adorávamos atazanar e existia também um pé de carambola. O meu pé de carambola.

Foi esse cheiro gostoso da fruta que me despertou para os dias mais emocionantes da minha vida, onde a preocupação era se as galinhas fugissem, fato que levaria a uma surra de chinelo e como castigo dias sem poder ir ao galinheiro, sequer na casa da vovó.

Enquanto estava no mercado aspirando a carambola com entusiasmo, fui transportada para aquela árvore de frutos amarelos onde um binóculo improvisado de rolo de papel higiênico me permitia ser a capitã no navio e ver um mundo além do nosso infantil. Como sempre, eu comandava a embarcação, era a mais velha dos irmãos e isso me dava o direito. Claro que impunha minha vontade aos menores sob ameaças.

O mais novo, coitado, nem rebatia, tinha medo de levar uns petelecos. O do meio, esse era mais corajoso, me afrontava, mas eu sabia usar bem as palavras desde criança e conseguia convencê-lo que obedecer era melhor para ele. Assim eu descansava no meu posto sobre a árvore enquanto eles trabalhavam na escavação de buracos na caixa de areia, montagem do cercado com galhos onde iríamos amontoar as galinhas, e ainda preparavam a mesa de lanche com restos de tijolos.

A nossa avó sempre trazia o lanche, pães com mortadela, suco, frutas, entregava tudo e voltava correndo para dentro de casa, não interrompia a brincadeira e nem dizia palavras de juízo. Santa avó. Ela não ralhava conosco, mas eu berrava com meus irmãos:

— To esperando o suco aqui em cima. – E assim obrigava o irmão do meio a escalar o pé de carambola fazendo malabarismos para me levar a garrafinha de suco. Nesse ínterim, o mais novo, sempre comilão, devorava o sanduíche dos dois. Era um sistema que funcionava bem.

Eu podia mandar bastante nos dois, mas quando alguém mexia com eles... No dia em que o vizinho veio brigar afirmando que duas crianças estavam tacando carambolas podres na casa dele, eu assumi o lugar. Óbvio que depois cobrei isso em favores dos dois pirralhos que minha mãe pariu e fiz com que prometessem nunca mais desperdiçar carambolas. Ninguém se mete com os meus irmãos.

O bom de ter duas cópias suas em casa é que sempre tem alguém para brincar e para brigar. Quando um tinha uma nova ideia e outro discordava, o terceiro decidia. Por isso dizia que sempre teria filhos em número ímpar, para finalizar todas as discussões.

Foi pelo número ímpar que consegui convencer o do meio e o mais novo a fazerem um teatro de animais da floresta, eles eram os animais e eu o caçador, o que me dava o direito de ter uma funda, assim eles corriam para não levar chumbo na bunda.

Todavia, em alguns dias a brincadeira no galinheiro era substituída por uma tarde ao lado da avó no banquinho. Tenho trauma daquele banquinho. Ela sentava ali com uma galinha embaixo do braço. E sem dó nem piedade dos netos, ou das galinhas, torcia o pescoço do bicho, dizia que seria o almoço de domingo.

Nós três tínhamos que ajudar. Depenávamos a galinha escaldada em água quente. Tadinha, foi atrás dela que corríamos na sexta-feira anterior. Os pintinhos do animal que vimos crescer e por eles fomos bicados tantas vezes, agora estariam desamparados. Essas eram tardes marcadas com “X” no calendário da memória. Eu saía mais triste do que feliz de comer a galinha.

Contudo, o cheirinho do bolo da vovó logo me deixava menos borocoxô, mas não totalmente festiva. Só as carambolas me deixavam sorridente de novo. Elas tinham um gostinho meio azedo, pareciam até laranja lima. Gostava porque tinham o formato de estrela, o que sempre me deixava no céu.

Quando era época de carambola, minha avó nos deixava colher todinhas e eram tantas que precisávamos dividir com os vizinhos. Eu comia de me lambuzar, de escorrer pelo pescoço e ficar toda grudenta. Era normal sairmos do galinheiro tão sujos que mamãe nos levava direto para o chuveiro antes de entrarmos no carro rumo à nossa casa. Às vezes tinha areia até no cabelo.

Quando comia carambola demais a vovó fazia um chá que também tinha lá no galinheiro, um chá para dor de estômago, não lembro o nome, mas me recordo que era amargo, deixava um gosto de ferro na boca. Ficava plantado num cantinho cercado, no pomar, onde as galinhas não conseguiam entrar, mas nós sim.

Ali meu irmão mais novo fez a festa quando descobriu as cenouras que ele tanto adorava. Aprendeu também que se a primeira cenoura do pomar ainda não tivesse crescido bastante para comer, provavelmente as outras também não. Mas isso ele só se atentou depois que desenterrou a última e viu minha avó chorar de desgosto por ter perdido toda aquela colheita. Não teve surra, mas ficamos dias sem visitar nossas amigas de pena.

Outra bronca que levamos foi quando, dentro do rancho, decidimos pegar as máquinas velhas e tentamos fazê-las funcionar. Encontramos um moedor de café, enferrujado, emperrado, mas que tínhamos certeza que nossa destreza o faria voltar à vida.

Depois de várias sextas-feiras estudando, mexendo em peças, como se fôssemos especialistas, finalmente pensamos que o moedor de café estivesse funcionando. Ilusão de criança. Consegui trancar meu dedo no moedor e por sorte o negócio ainda estava travado e por um triz meu irmão do meio não moeu meus dedos junto com as sementes que jogamos fingindo ser café. O caçula, tadinho, só berrava do susto.

Mas o choro e a dor naquela época passavam rápido, com um beijo da mãe ou um bolo da vovó. Foi assim que minha avó cuidou de mim no dia em que quase perdi o dedo, tendo a sorte de cair só a unha. Tudo bem, ficou mais fácil, uma unha a menos na mão para cortar.

Era ali, naquela natureza cercada, que eu me sentia em casa, uma criança livre para ser quem quisesse, caçadora, capitã, rainha, sem medo, nojo ou preconceito. Mas o medo deveria fazer parte das emoções de toda a criança. Se eu tivesse tido medo…

De caçadores na floresta, navio de piratas, cavaleiros e castelos, chegamos a brincar de astronautas. Nem sabíamos pronunciar a palavra direito, mas descobrimos que poderíamos ir muito mais longe que o nosso pequeno galinheiro se tivéssemos mais distantes da terra. Não deu outra, competimos eu e meu irmão – o tal corajoso do meio –, cada um com uma caixa de papelão na cabeça, com pouca visão, para ver qual astronauta iria pegar as estrelas mais distantes. As carambolas eram nossas estrelas no faz de conta. Eu era mais pesada, ia com cuidado. Ao tempo em que lutávamos de galho em galho, o terceiro irmão se fartava lá embaixo com cada carambola que caía. Esperto ele, pois nós não tínhamos tempo de comer se quiséssemos conquistar o mundo.

O medo e a falta de visão em virtude da caixa sobre os olhos me brecaram no galho mais alto que eu já tinha alcançado em todas as sextas-feiras da minha vida. Já o meu irmão, que era leve – e talvez leviano – decidiu ir mais alto. Queria pegar a carambola que falei que era especial, brilhante, diferente de todas as outras.

Ele disse que buscaria para mim porque mesmo que eu não conseguisse chegar ao topo, ele sempre traria para mim as estrelas. E foi então que o galho partiu, a caixa de papelão caiu da cabeça dele e o irmão do meio despencou mais rápido que a carambola.

Nunca mais subi no meu pé de carambola, nem voltamos ao galinheiro. Choro toda vez que vejo a fruta no formato das estrelas que hoje ele guarda para mim num céu brilhante.



(Foto tirada hoje no quintal recém-descoberto da minha casa alugada - 3/6/23, mas texto antigo baseado em algumas memórias de criança, com exceção das fatalidades que a criatividade me permite criar sem terem a consequência da tristeza na vida real).

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