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Não há de ser nada - Marina Hadlich



Conto escrito depois de ouvir essa frase na rua... Inspiração diária!


“Não há de ser nada”, disse minha namorada assim que saímos do consultório do oncologista, enquanto eu coçava a orelha.

Um caroço no pescoço e a suspeita de câncer fez com que ela marcasse aquela consulta. Ela sentiu o caroço primeiro, ela agendou o médico e ela me buscou no trabalho para irmos até lá.

Agora preciso esperar os exames para saber se realmente é câncer. São apenas duas horas de espera. Duas horas de vida. Será que termina aqui? Coço a orelha. Ela bate na minha mão.

“Mania boba”. Boba é ela que só me critica. Talvez, se eu estiver mesmo com câncer, tudo isso termine. A vida, ela e eu.

A raiva é tamanha que chuto o lixeiro na minha frente desejando que fosse a canela dela. É pecado pedir pela morte quando tantos tentam resistir a ela?

Se for câncer ela vai cuidar de mim, tenho certeza. Mas seria um suplício ser alimentado por ela, ser lavado por ela. Meu Deus, era melhor ir para uma clínica geriátrica.

Será que casei com a minha mãe? E se eu fingisse suícidio e desaparecesse? Mas daí quem cuidaria de mim? Minha mãe foi comemorar seus quarenta anos de vida e nunca mais voltou, meu pai perdeu mais dez anos de vida depois disso com depressão, deixando-se levar pela morte aos poucos com cirrose, culminando no esperado velório.

Estar doente pode ser um bom argumento para terminar um namoro. “Não quero prendê-la, você tem toda a vida pela frente”. Quem já viveu a morte de perto tem consciência disso. É o meu subconsciente dando um recado para ela? Ou para mim? Se eu não tiver câncer, mas um simples cisto sebáceo, eu vou matar a minha namorada por me fazer passar tamanha vergonha. Uma boa forma de terminar o namoro, matando a garota.

Farei melhor. Independente do resultado eu vou terminar esse relacionamento na lata. Estamos numa sala de espera que qualifica bem o nosso relacionamento. Ela sempre na espera do próximo passo, de juntarmos as frigideiras, fazermos cópia da chave. Não! Eu quero alguém que coce a minha orelha ou pelo menos que me deixe coçá-la.

Chamam meu nome. Não posso mais esperar. Será que vou morrer? Ela vai morrer. Nosso namoro vai morrer.

— Olha, esse nosso relacionamento, como você disse hoje mais cedo: não há de ser nada. Não adianta eu te dar esperanças se você coloca todas as suas esperanças em mim. Agora preciso ir, estão me chamando.

O resultado não importa, agora eu posso voltar a viver.


(Escrito por Marina Hadlich em 10 de abril de 2022) Ps. Qual será que o verdadeiro contexto dessa conversa que ouvi? Quem sabe um dia as duas pessoas do diálogo esbarrem nessa história e me contem o verdadeiro final.


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